Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player



Fórum

  Orkut   Twitter   Facebook  


Ledd

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

O Caçador de Apóstolos

Prefácio

Vivemos no admirável mundo novo da publicação de ficção científica e fantasia. Afinal, são pelo menos doze editoras, espalhadas pelo país, abertas a escritores brasileiros dedicados a esses dois gêneros da literatura imaginativa e divulgando dezenas de novos autores. Mesmo admitindo que todo esse movimento editorial não signifique um sucesso retumbante de vendas nem represente um impacto significativo sobre o status literário desses gêneros, há uma certeza: o contexto atual é rico e promissor.

Nem sempre foi assim.

Quando eu dava os primeiros passos em minha carreira — entre 1985 e 2000, digamos —, apenas um punhado de escritores tinha chance de publicar seus livros de FC e fantasia, ou de aparecer em alguma revista de maior importância. Eram poucos os escritores fortemente associados a esses gêneros — Jorge Luiz Calife, Braulio Tavares, Rubens Teixeira Scavone, André Carneiro, Henrique Flory, Luiz Roberto Mee...

Publicar naquela época significava às vezes se empenhar diretamente na criação de novos mercados para ficção. Em fins de 1994, levei algumas das minhas histórias à revista Dragão Brasil. Eu sabia que a revista americana Dragon publicava contos, ainda que sem exceder um por número — talvez essa que foi a primeira revista brasileira de roleplaying game se dispusesse a fazer o mesmo. Fui atendido por uma mulher da diretoria, que ficou de encaminhar as histórias para a apreciação do editor-chefe da revista. Por sorte esse editor era Marcelo “Paladino” Cassaro, ele mesmo um ficcionista interessado em exibir contos na Dragão Brasil e em sua revista irmã, Só Aventuras. Por isso, em janeiro de 1995 a DB N.º 4 trouxe meu conto Infiltrado, e em fevereiro a SA N.º 1 publicou minha história A sombra dos homens, o primeiro texto da Saga de Tajarê.

Logo a seguir, essas revistas publicaram Cassaro, J. Mauro Trevisan, Carlos Orsi, Miguel Carqueija, Fábio Fernandes e outros, até que, mais adiante, a política editorial mudou e os contos cederam espaço a outros conteúdos.

É fato curioso, embora compreensível, que eu seja reconhecido pelos leitores mais por minhas histórias publicadas nessas revistas de RPG do que por qualquer outra publicação em minha carreira de mais de vinte anos. Acredito que algo semelhante deva acontecer com os outros autores publicados nelas.

Mas o impacto do boom do roleplaying game no Brasil vai além dessa marca na carreira de meia dúzia de escritores. No meu ponto de vista, o fenômeno do RPG ajudou a pavimentar o caminho para este admirável mundo novo, educando uma geração na apreciação da fantasia, do horror e da ficção científica. Um dos ramos mais populares do RPG, os jogos sobre vampiros modernos reconfigurados em tribos urbanas, deve ter suas digitais no imenso sucesso atual de ficção sobre vampiros — incluindo a inédita fama de André Vianco, um best-seller da literatura sobrenatural.

Antes, a ideia de um best-seller brasileiro nessa área, e mesmo a ideia de um RPG nacional, faziam parte da “terra dos sonhos improváveis”. Hoje, olhando retrospectivamente, parece apropriado que Tormenta, o RPG brasileiro mais bem sucedido, tenha surgido das páginas da Dragão Brasil e como uma criação de Cassaro, Trevisan e de Rogério Saladino.

Nos Estados Unidos e Inglaterra, existe a categoria tie-in — romances associados a um produto que surgiu primeiro como filme de cinema, série de televisão ou jogo de RPG (sendo chamados, neste caso, de game-related novels). O Brasil costuma importar com frequência essas “novelizações”, mas a ideia de produzi-las sempre foi estranha ao nosso ambiente editorial. Na década de 1990, investiguei a possibilidade de fazer adaptações semelhantes de filmes de José Mojica Marins, o “Zé do Caixão”, e de Ivan Cardoso, mas sem chegar a lugar algum.

Então, surge em 2006 o primeiro romance do jovem escritor gaúcho Leonel Caldela dentro da Trilogia da Tormenta, O inimigo do mundo, dando uma nova vida literária ao universo de Tormenta e comprovando a viabilidade dessa categoria editorial no Brasil. Os criadores do jogo permitiram que Caldela escrevesse com grande liberdade quanto a enredo e personagens, dando-lhe chance de imprimir logo de cara a sua marca pessoal. Esse livro foi seguido por O crânio e o corvo (2007) e O terceiro deus (2008), fechando a trilogia. O primeiro romance já tem uma segunda edição, muito enriquecida por outros conteúdos — incluindo uma batelada de sugestivos desenhos de Patricia Knevitz, e comprovando o sucesso da iniciativa. Caldela começou escrevendo para esse universo com um conto (em parceria com Knevitz) na revista Tormenta N.º 15.

Nem tudo é positivo, porém, na influência do boom do roleplaying game sobre o estado da literatura imaginativa brasileira. Muitas histórias soam mais como argumentos de RPG do que literatura: personagens sem profundidade, situações sem conflito ou tensão dramática, passando a sensação de serem esqueletos sem carne, histórias que são mais mapa do que território.

Os romances de Tormenta, de Leonel Caldela, escapam dessa armadilha. Nada têm da ligeireza dos tie-ins, a começar pelo tamanho: 500 páginas em média. O leitor de imediato sente que há neles um esforço real, um comprometimento maior, um desejo de explorar o potencial do enredo, dos personagens e da criação de mundo. Evidentemente, tamanho apenas não faria muita diferença, se a prosa não fosse ágil e se o autor não tivesse bom controle do material, um sentido agudo do passo narrativo e caracterização rápida e eficiente dos personagens. Resultado, certamente, de muita leitura de fantasia — mas também de obras fora desse gênero — e de uma temporada na conhecida e reconhecida oficina literária do escritor mainstream Assis Brasil.

Estas são algumas das habilidades de Caldela que o colocam acima da maioria dos escritores brasileiros trabalhando atualmente com alta fantasia ou fantasia heroica. Mas além dessa competência técnica ele imprime aos seus romances um sentido trágico que lhe rendeu comparação com William Shakespeare, pela revista Rolling Stone. O elogio inclui o mérito de Caldela em não se contentar — ao contrário de tantos colegas brasileiros — com a imitação do trabalho de Tolkien.

Um escritor de personalidade própria que, por mais que seu trabalho com os romances game-related de Tormenta seja interessante e significativo para a fantasia brasileira, não poderia ficar sem explorar mais profundamente a sua própria imaginação, sem vínculos com um cenário desenvolvido e praticado por outros.

O caçador de apóstolos é o romance que marca essa transição para uma nova fase na carreira de Caldela, o primeiro de uma série que deverá ter mais dois ou três livros. Nele, temos não apenas as virtudes encontradas na Trilogia da Tormenta, mas novos níveis de expressão literária, com um formato e um narrador incomuns. No estilo nota-se a linguagem “brutalista”, de Rubem Fonseca, que admite a explosão de violência a qualquer instante, entre personagens de linguagem direta e escatológica como os de Charles Bukowski. Mas é no narrador pouco confiável e na forma com que Caldela estrutura a narrativa que o leitor encontrará a grande novidade desse romance.

Iago — personagem de nome shakespeareano — é um dramaturgo mambembe que aos poucos conquista o interesse da nobreza e do clero, que é o verdadeiro poder no mundo secundário em que O caçador de apóstolos se passa. Iago é narrador e protagonista, envolvido em vastas intrigas e movimentos de guerreiros rebeldes. É ao mesmo tempo marionete e marionetista de intrigas palacianas e profecias forjadas. O fundamentalismo religioso é o grande tema do romance, dando-lhe, no seu tratamento cru e violento, uma atualidade perturbadora. Juntam-se a Iago como protagonistas a camponesa-profeta Jocasta, e o guerreiro — espécie de templário desse mundo de fantasia — Atreu. Seguindo-os de perto, uma galeria de personagens secundários com suas próprias histórias pregressas e personalidades.

Mas Iago, Atreu e Jocasta abrem o romance cada um muito bem instalado em sua linha narrativa. Iago e Atreu partilham de um passado em comum do qual querem se redimir, participando — um como cronista e o outro como general — de uma campanha contra os líderes da Igreja. Jocasta, arrebatada ainda jovem por uma coluna volante de místicos em marcha constante, combinação da esqualidez do movimento de Antonio Conselheiro e a sandice coletiva e suicida da Cruzada dos Camponeses na Europa (1096). O leitor sabe que cada um deles tem uma história pessoal prévia muito poderosa, e que terão um papel crucial no futuro próximo. Mas o vislumbre do que está por vir é habilmente retardado pelo autor, que, em uma segunda parte, narra o que aconteceu no passado e o que os levou ao desespero e à guerra.

Esse embaralhamento de começo-meio-e-fim é espelhado pela firme disposição do narrador Iago de não se ocultar no texto. Ele não apenas está evidente quase o tempo todo, como expõe as suas motivações, truques e limites como escritor. Quando relata algo que testemunhou, embeleza e confessa que embelezou; quando narra o que não testemunhou, admite que imagina e inventa. Iago problematiza o papel do narrador tradicional, coloca de propósito a pulga atrás da orelha do leitor e transforma O caçador de apóstolos em um raro exemplo de ficção autorreflexiva — uma das principais estratégias do pós-modernismo literário — na história da literatura imaginativa brasileira.

Por outro lado, o leitor que busca a ação e aventura que a fantasia épica proporciona não vai se decepcionar. Os personagens principais mudam de lado constantemente. Enfrentam os contra-movimentos de seus inimigos, marchas forçadas, ataques de cavalaria e infantaria, cercos e defensivas, batalhas e duelos dinâmicos e violentos. Mas esses aspectos também carregam a disposição incomum de remover da Idade Média o seu lustre romântico e recuperar a crueza e a brutalidade daquela época. E o leitor que busca magia na alta fantasia encontra em O caçador de apóstolos um estranho metal que ilumina e enlouquece, um povo esquecido capaz de alterar a sua aparência física, e até um toque de ficção científica — com algo semelhante ao escritor Braulio Tavares chamou de “ciência gótica”, ela também imbuída de certa aura de magia e sobrenatural. O efeito é original e frequentemente intenso. A verdadeira natureza desses fenômenos fica para o volume seguinte da saga, ainda que O caçador de apóstolos ofereça um final bem amarrado e condizente com toda a experiência vivida pelo leitor, a partir do instante em que seu deixou levar pelo estilo ágil de Caldela.

Paira ainda a atmosfera densa de um mundo de misticismo à flor da pele, presente em todos os segmentos sociais. Mesmo aí, porém, há uma ironia constante, espelhada pelo comportamento errático de alguns dos personagens. Nem tudo é o que parece ser. Nem todos se unem à causa certa pelos motivos certos, nem todos os motivos certos levam à causa certa.

Ao final, o próprio leitor vai questionar o que ele espera da fantasia brasileira — e esse pode muito bem ser o principal efeito deste romance maduro e original. O primeiro de uma série que promete emoções fortes, realizações literárias instigantes e que pode se tornar uma referência do gênero entre nós.
 
— Roberto de Sousa Causo
Copyright © 2009-2011 Jambô Editora. Todos os direitos reservados.