Conto #2 - Invasão de Calacala

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Al'drich
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Conto #2 - Invasão de Calacala

Mensagem por Al'drich » 10 Jan 2019, 18:14

Sabíamos que nossas ações causariam problemas, tínhamos total certeza que não permaneceríamos os mesmos. O campo de batalha não faz bem até mesmo para o mais louco bárbaro.

Pude ver claramente os arqueiros élficos mirando suas setas em minha direção, eu estava voando, pois a confusão embaixo de meus pés impediria qualquer locomoção. Algumas flechas me acertaram, umas foram interrompidas pela barreira arcana que conjurei, outras simplesmente erraram seu destino. Minha voz abafada pela mascara não atrapalhou a conjuração, eu faria um ato detestável, se fosse um clérigo, com certeza perderia meus poderes. Quando penso em meu futuro utópico imagino-me espalhando o conhecimento, cumprindo um dogma que no passado segui a risca. Em poucos segundos neguei a vida, não só a inimigo, escravos, crianças, pessoas, talvez meus aliados tenham morrido pelos resquícios explosão.

Forcei-me a encarar toda destruição que algumas bolas de fogo fizeram, os corpos foram carbonizados até os ossos, minha mente martelava dizendo que eu fizera o certo, que a rebelião limpava o mundo da mancha taurica, que o escravismo seria erradicado. Com pensamentos confusos, pousei para sentir o calor do chão banhado em sangue, fui atacado diversas vezes, eles estavam em maior número, em uma proporção de cem para um, mas a fúria humana, élfica, anã e outras inúmeras raças que compunham nossa tentativa de liberdade, igualavam toda aquela força. Era um banho de sangue e nós os responsáveis. Éramos um misto incongruente trabalhando para um bem maior, mesmo que ele fosse alcançado pelo fio da espada.

Duas adagas voaram por cima de minha cabeça atingindo o crânio e o peito de um minotauro que tentava atacar-me pelas costas, em agradecimento, empunhei uma varinha lançando um poderoso relâmpago em um segundo que tentara golpear minha salvadora. Ela me cumprimentou com a cabeça e seguiu com o combate em outro lugar. A confusão havia me desnorteado, e os assassinatos que cometi deixaram minha visão turva, a todo o momento forcei minha mente a lembrar, eu sou um diplomata não um guerreiro. Minha missão era a paz.

Mais uma vez lancei vôo e me pus em direção ao norte, no meio de meus inimigos, precisava encontrar o homem que coordenava a batalha contra nós. Sabia que ele era inflexível, tinha total certeza que ele me mataria assim que pudesse, mas eu estava sendo impulsionado não por uma mera coragem, havia inspiração tal que não consegui descrever. Tiberius estava em Calacala e representava mais problemas que o próprio pinceps. Ouvi boatos que Kelskan também estaria, mas descartei a possibilidade quando encontrei pouquíssimos clérigos do deus da força em combate.

O local que procurava era uma mansão perto do que conhecia como casa. Poucas eram minhas referencias, e o formato de labirinto que a cidade possuía me fizeram perder horas tentando encontrar a base de Tiberius, mesmo com toda destruição causada para abrir caminho pela cidade, plano esse dado por nosso amigo Galtor, era difícil a locomoção por Calacala, mas ficou obvio ao encontrar o estandarte de Tapista. O brasão do touro em chamas. Para minha surpresa não havia guardas, uma fraca iluminação apenas, ponderei ser o lugar errado, mas não havia tempo.

Meus pés tocaram o chão de pedra lisa, uma sensação fria que não sentira a muito. A batalha não havia chegado ali por algum motivo. A porta escancarada era convidativa, o futuro seria moldado a partir do momento que eu entrasse por ela. Com alguns gestos lancei um pequeno truque, nenhuma magia fora detectada e algo me dizia que não houvera armadilhas plantadas.

Entrei temeroso.

Mesmo com toda aquela imensidão havia pouca mobília decorativa, tudo era muito simplista e eficaz. Tirando a enorme estante abarrotada de livros, os quais fiquei curioso para ler, tudo era muito comum, quase plebeu, totalmente diferente da pompa e altivez associada à Tiberus. O general fora incumbido de erradicar todos os focos de insurreição. De fato muitos de nós morreram em sua gestão, porem nada lhe foi revelado.

Ao menos era o que pensávamos até meses atrás.

De alguma maneira ele encontrou uma de nossas bases subterrâneas em volta do Grande Labirinto. Ele estava agora com parte de nossos homens e mulheres transformados em escravos, outros mortos, por sorte, nossos planos lhe eram desconhecidos.

— Se junte a nós, plebeu e pouparemos seus homens — Escutei em élfico perfeito e isso me chamou atenção

Atrás da chama de uma vela pude ver quem falara. Uma das mais belas elfas que já encontrei. Longos cabelos loiros. Mantinha seu rosto empinado, me encarando como superior, talvez fosse menos que um inseto para ela, seus olhos emitiam um brilho que me ofuscava, traços finos traziam elegância e nobreza. Estava vestida de branco como uma noiva. Seu braço direito possuía uma tatuagem cobrindo por completo sua pele, não conseguia ver exatamente o que era, mas me parecia uma marca de escravidão
.
De alguma maneira estranha eu senti uma grande vontade de rir, cada vez mais e mais uma gargalhada involuntária tentara tomar conta de mim, como se algo hilário ocorresse, um sentimento de histeria. Eu ri, mas por vontade própria e não pelo efeito da magia. Ela tentara me humilhar.

— Particularmente gosto muito desse truque — Não tentei desdenhar, apenas criar uma leve empatia — Uma vez utilizei com um amigo por que ele queria matar um velho barbudo vestido de vermelho — Ri.
A elfa continuou a me encarar.

Silêncio.

A chama da vela se apagou, havia outros pontos de luz, porem bem mais afastados. Minha visão escureceu, mas demorou pouco para acostumar-me com a falta de iluminação.

Ela virou-se para uma porta, entendi que era para segui-la. Não sabia como eles anteciparam minha chegada, ponderei infiltrados, mas não descartei a opção de adivinhos ao lado do general. Ao abrir a porta pude enxergar a claridade de uma lamparina. Ainda me questionava o motivo de tamanha escuridão, talvez quisessem em intimidar, ou não chamar atenção, muitas eram as possibilidades. Junto à claridade, estava aquele que julguei ser Tiberius, e ele fazia jus ao que conhecia como minotauro.

Não estava vestindo uma armadura e aquilo me intimidara. Estava ofegante, todos os seus músculos trabalhando em uma sinfonia rítmica e ordenada, por um impulso fui levado a dar passos atrás, mas a coragem inspiratória não fugiu de meu corpo, apenas se tornou cautela. Um golpe em cheio me levaria à morte. A elfa aproximou-se dele, acariciou seu peitoral, depois levou a mão aos bíceps e o agarrou com um misto de submissão e adoração que me enojara. Ele continuou de pé ignorando totalmente a presença da mulher, focando seus olhos em mim, sua presença me fazia diminuir, me senti raquítico, pequeno e mais uma vez tentei fugir. A coragem não deixou, mais tarde agradeci a barda que não me deixou fraquejar.

— Venho com uma proposta, melhor que simples submissão — Encarei a elfa. — Essa batalha matou muitos dos dois lados. Pedimos apenas uma audiência com Aurakas.

Entre minhas palavras despejei energia arcana. Era um simples feitiço de afeição, mas serviria para dobrar, nem que fosse um pouco a mente do general. Porem sua disciplina era assombrosa. Uma mente complexa e difícil de lidar. Senti um leve ricochete e a jóia de aprimoramento em minha testa ganhara uma leve rachadura, talvez até minhas braçadeiras tenham danificado. Mantive a postura desafiadora, mas ele sabia o que eu tentara.

— E por qual motivo iria eu pedir ao Princeps que conceda tamanha honra a simples mosquitos irritantes?

Era valkar perfeito, sem sotaque, sem erros, apenas valkar vindo de uma voz poderosa e assustadora, um trovão pela boca de um mortal. Ele aproximou-se de mim ao ponto de sentir sua respiração potente, o ar expelido retirara os fios de cabelo em meu rosto e os jogara para trás.

— Para evitar que mais sangue seja derramado. Você perdeu seus homens, eu perdi incontáveis amigos. Não queremos que nossa liberdade seja marcada por massacres. — A cada palavra, minha voz diminuía.

Seus olhos pareciam pegar fogo.

— Você não entende sua posição. — Sua manzorra agarrou forte meu ombro — Frágil, pequeno, dependendo de truques mágicos. Não reconhece a verdadeira força, não entende a verdadeira justiça. Eu deveria te proteger garoto.

— Agradeço a compaixão, mas não vou abaixar minha cabeça a alguém menos que um líder de estado. Talvez, nem mesmo ao seu líder eu me prostre — Realmente, se nem a Wynna, que possuía minha devoção, obedeci, quem dirá a um mortal.

Sim, eu sentia todo o peso das mortes, detestava tudo aquilo, eu era um diplomata, não um guerreiro. Mas sabia que meus companheiros seriam caçados assim que eu aceitasse a proposta de rendição. Tiberius não se contentava em apenas ser reconhecido como o mais forte, ele demonstraria por “a mais b” que deve ser temido.

— Queremos apenas uma audiência — Repeti.

— Eu desejo o poder total, desejo o comando de Tapista. Desejo aumentar meu harém, desejo demonstrar minha força por toda Arton. Desejo mais um escravo!

Eu fora puxado, não havia como lutar contra. Senti dor, meu ombro descolado era cada vez mais pressionado. Mas a dor não superava minha convicção, eu não iria ceder.

Coloquei minha mão direita sobre o coldre e puxei minha varinha de relâmpagos, a queima roupa disparei três vezes. Soltei-me de seu aperto e apontei para a elfa, adrenalina tomava conta de meu corpo, até que senti meus músculos se enrijecerem, ela falou palavras arcanas imobilizando meu corpo, nem mesmo minha boca pude mexer.
Fui recebido com um soco, potente o suficiente para desvencilhar a magia e me jogar a alguns metros. Senti minha mascara se deslocar e mostrar parte de meu rosto, Tiberius me reconheceu no mesmo instante e proferiu zombarias das mais variáveis, amaldiçoou meu nascimento e por final riu.

— Se estiver procurando por sua amiga, desista, ele é minha posse.

Ignorei, mas aquilo me machucou.

Movi meu braço direito formando uma linha no ar e chamas surgiram um pouco fracas, talvez por influencia da rachadura em minha jóia. Eu estava ferido, qualquer misero ataque poderia me nocautear. Aquele único soco quebrou alguns ossos, era difícil respirar, mas meu espírito se manteve. A elfa sabia de meu estado e preparou feixes de energia arcana, mas meus pensamentos se mantinham rápidos então reagi logo que os mísseis mágicos foram lançados, uma barreira surgiu em minha volta, era invisível, porem tangível que impediu minha queda.

— Qual sua resposta Tiberius?! — Gritei enquanto disparava um relâmpago em direção a mulher

— Irei esmagar toda a rebelião!

Ele atravessou a muralha de fogo, deu um salto e golpeou mais uma vez em minha direção, fez a barreira se desmanchar em cacos translúcidos, mas não me acertou.

— Está decidido. Pelas leis de Tapista, que vença o mais forte! — Bradei, mesmo com o ar faltando.

Um pentagrama se abriu por baixo de meus pés, um circulo de energia que começou a iluminar todo o cômodo, pude ver claramente o ódio e fúria do minotauro, ele tentou me agarrar mais uma vez, porem consegui me esquivar no ultimo minuto. A luz resplandeceu cada vez mais e, em um gesto irônico e infantil, acenei um tchau para Tiberius e a elfa que eu não sabia o nome.

De súbito me encontrei em outro lugar.
***

Estava no meio de uma tenda branca, sem brasão, sem estandarte, com engenhocas e apetrechos diversos, o goblin que ali estava tomou um susto e depois começou a xingar pois eu estava atrapalhando seu trabalho. Desculpei-me em sua língua, ele me fitou durante um tempo e percebeu que eu estava sujo e sangrando. No meio da confusão que estava na mesa ele jogou um pequeno frasco com liquido vermelho profundo.

— Vai querer que eu abra também? — A voz esganiçada de Galtor, o goblin que se recusava a falar valkar, me trouxe certo alivio.

Balancei minha cabeça em negação.

Sai da tenda bebendo todo o conteúdo do frasco.

Começava a amanhecer, o céu alaranjado era plano de fundo para o fim de uma batalha que ocorrera só para uma discussão diplomática que eu já sabia.

Manquei até outra tenda. Minha mão direita segurava o ombro deslocado. Boa parte da dor a poção suprimiu, mas a falta de ar e algumas costelas quebradas precisavam de tratamento especial. Havia marcas de sujeira e sangue ressecado por todo meu corpo, por dentro da mascara estava uma mistura de sangue, suor e algumas lagrimas difíceis de limpar. Meu odor e aparência lembravam um moribundo, e fui tratado como um assim que entrei nos aposentos improvisados de Érika.

Ela me olhou com uma expressão de nojo, depois, pediu para que todos que estavam lá saíssem da tenda. Mark, nosso paladino, Me ofereceu sua cura sagrada, mas recusei. Quando todos saíram, a meio-elfa se aproximou de mim, ela era muito mais baixa que eu, mal alcançava meu tórax, mesmo assim ergueu seus braços e ajeitou minha mascara que estava torta, depois colocou as mãos em meu braço esquerdo e fez força, como se o levantasse, houve um estalar e meu ombro finalmente voltou ao seu devido lugar. Por fim se voltou para a mesa de centro com o mapa de Tapista aberto, retirou um alfinete vermelho e no mesmo lugar pôs um azul.

— Você está horrível.

— Diria que é minha melhor aparência em meses.

— Como foi, o que ele disse? — Ela parecia completamente indiferente, fez a pergunta por educação, ela já sabia a resposta.

— Você estava certa, ele quer nos exterminar.

Ele virou com um olhar superior, a idéia de conversar com Tiberius fora idéia minha, mas estava fadada ao fracasso.

— Certo, então vamos retribuir com a mesma moeda.

Pude ver um sorriso de canto

Érika nunca foi uma pacifista, mas odiava violência sem razão. Meu primeiro encontro com ela foi em malpetrim, o segundo em Tapista e eu conseguia notar todas as diferenças, sua personalidade estava mais forte e liderava todas aquelas diferentes pessoas como se fossem um. De certa maneira isso me lembrava um pouco da Aliança Negra.

— Eles são tão inocentes quanto nós.

— Vou ignorar o que você falou.

— Érika, nada justifica essa guerra. A natureza de alguém não pode ser mudada tão fácil.

— Concordo, eu não pediria a um elfo para parar de chorar a queda de Glórienn, mas nada me impede de ficar irritada com isso.

Seria como falar com uma porta, ela estava decidida.

Eu me aproximei calmo, sem que meus passos fizessem barulho. Com ela de costas, a envolvi em meus braços, minhas mãos emaranharam em seus cabelos brancos. A água de uma tigela refletia os olhos castanhos e valentes de minha líder. Pousei minha cabeça em seus ombros e falei levemente a seu ouvido.

— Você mesma disse que não queria sangue taurico nas mãos.

— O que significa sua mascara? — Ela me empurrou se desvencilhando de meu abraço

Fiquei calado.

— Responda! — Gritou.

— Representa a rebelião, sem rosto, sem sexo ou raça, apenas indo a favor da liberdade.

Ela caminhou até mim, apontou o indicador no meu rosto, seu semblante possuía raiva. Eu não sabia até que ponto aquele ódio era contra mim.

— Então nos represente melhor, Arauto. Os planos mudaram e eu quero todos aqueles malditos a sete palmos do chão.
Apenas concordei com a cabeça.

— Agora pegue suas coisas, estamos indo para Rodennphord, eles precisam de ajuda.

Dois ataques ocorriam simultaneamente. A antiga Hershey era responsável pelos suprimentos enquanto Calacala era a principal cidade mercante e portuária de Tapista, foram meses minando defesas, criando estratégias vivendo a míngua, dando passos cautelosos até de mais esperando o momento oportuno. Estávamos em menor numero, possuíamos menos equipamentos e poder de fogo, mas se nem mesmo Khalifor resistiu a um ataque surpresa, porque Calacala conseguiria?

Agora com a principal rota de suprimentos em nossas mãos, a rebelião finalmente dava seu primeiro passo.

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